Não há como negar: humanos e pássaros têm muito em comum.
Assim como os pássaros migram para fugir do inverno rigoroso e preservar suas vidas nós migramos, muitas vezes sem direção, na esperança de melhorar nossas vidas, na esperança de que as coisas mudem para melhor. Quando um humano decide ser nômade assim como as aves, acaba experimentando um misto de medo do que está por vir e medo de não vivenciar mais o que está deixando para trás. Medo de que aqueles momentos descontraídos com os bons amigos se tornem raros, de que as pessoas que são especiais acabem se tornando apenas lembranças. Há alguns anos atrás, quando as minhas idéias eram ainda mais confusas e vivia naquele marasmo que as cidades pequenas geralmente proporcionam disse para mim mesmo: "quero que as coisas sempre mudem na minha vida, não quero viver mais nessa rotina, quero coisas diferentes, sempre". De alguma forma ainda penso assim, porém, hoje acredito que algumas coisas não deveriam mudar. Como seria bom se os bons amigos sempre estivessem por perto e que nós pudéssemos levar a vida com todos eles em volta. Mas não há escapatória, para que as coisas aconteçam precisamos arriscar e pagar o preço, por mais alto que seja e, quanto maior o sonho, maior é o preço a se pagar. Portanto, é necessário ser forte, afinal, as pessoas que realmente são especiais em nossas vidas resistem ao teste do tempo e os bons momentos que foram vividos ao lado dessas pessoas sempre estarão guardadas em um lugar especial em nossa memória, e neste caso, em minha memória. Jamais vou esquecer todos os grandes amigos que fiz durante minha caminhada, que me surpreenderam e que mostraram que tem muitas pessoas que valem a pena se conhecer e são essas pessoas especiais que me dão força e que me faz ter certeza de que vale a pena, por mais dolorosa que seja a mudança que minha vida nômade impõem, seguir em frente, afinal, é inevitável que com o desenrolar de nossas vidas as coisas mudem.
“Há muito tempo atrás, ao chegar num pequeno vilarejo, um viajante que estava doente morreu perto da ponte. Os aldeões ficaram com pena e o enterraram ali mesmo. Puseram uma grande pedra sobre o túmulo e depositaram flores sobre ela. Pôr flores ali tornou-se então um costume. Não apenas as crianças, mas todos os aldeões passaram a pôr flores ao passar pela pedra, embora a maioria não saiba sequer por que o faz.”
Akira Kurosawa – Yume (Dreams)
A narrativa acima aparece no filme Yume de Akira Kurosawa, um filme que cujo roteiro é baseado numa série de sonhos marcantes que o autor teve ao longo de sua vida e, esta história em especial me chamou muito a atenção, pois nela podemos encontrar claramente um contexto no qual eu, tu que estás lendo este texto e todos os outros moradores desta esfera esfumaçada em que vivemos têm inserido no seu “modus vivendi” como se fosse um chip implantado em nosso cérebro de tal forma que ninguém sabe ao menos o porque dele estar ali. Estou me referindo àquilo que chamarei neste texto de Tradição Alienada.
Tu deves estar te perguntando que diabos eu quero dizer com isto, não é mesmo? Senão, que bom, pois eu poderia encerrar este texto por aqui mesmo. Mas como suponho que nem todos necessitam ter tamanho poder de compreensão à primeira vista, explicarei o termo ao qual me refiro.
De todas as atividades humanas, provavelmente é na religião onde encontrarei os exemplos mais claros de tradição alienada.
Por motivos que não se sabe o porque, as pessoas fazem sinais da cruz ao passar na frente de uma igreja, ou então acreditam que não devem fazer mal porque tem um purgatório, um inferno, ou vários outros pretextos usados por diferentes religiões para tentar controlar o comportamento alheio como, por exemplo, se o único motivo para não matar o melhor amigo fosse o medo de ir pro inferno. Porém, pergunte pro crente mais fiel ou pro padre mais próximo o porque de todas essas crenças. Provavelmente ele lhe citará um texto decorado da bíblia como de costume, mas quanto mais suas dúvidas forem aumentando, menores serão as qualidades das respostas, até que se chegue há frase definitiva: “Deus le volt”, ou, “porque Deus quer assim”. Porém não sabemos de onde vêm todas estas crenças, e elas se espalham de forma descontrolada. De pai para filho elas sobrevivem, se adaptam e sofrem mudanças durante os tempos, assim como uma boa tradição alienada deve ser: boa o suficiente para acalmar aquele que quer ouvir as palavras que deseja e péssima para os céticos.
Já no mundo das artes, um amigo meu me abriu os olhos para um típico caso em que a tradição se sobrepõe ao pensamento autoral: todos já devem ter ouvido falar que Beethoven era um gênio da música, que Mozart também era genial, e essa informação passa diariamente de boca em boca e muita gente diz sem pestanejar: “cara, Beethoven é um gênio!”. Mas pergunte para uma dessas pessoas porque Beethoven é um gênio. Garanto que 9 em 10 pessoas que discursam firmemente sobre este assunto não saberão lhe responder o porque, exatamente por que apenas ouviu alguém falar sobre a genialidade de Beethoven e saiu proferindo como um profeta bêbado e desvairado um assunto que ele não tem domínio algum.
Não quero dizer com este texto que todas as tradições são más ou erradas, mas sim que devemos ter um pé atrás pra qualquer tipo de informação que assimilamos no dia-a-dia. Que se corra atrás da verdade. É necessário um pouco mais de questionamento e não apenas o “é assim por que tem que ser assim”.
Não há situação mais deplorável do que a constante decadência imposta por igrejas e demais grupos manipuladores que apenas empurram goela abaixo as suas pregações decadentes e supram a capacidade de pensar, a identidade e a personalidade das pessoas. Essas fábricas de robôs humanóides, porque já não sei mais se é possível chamar de humano aquele ser que já não tem mais a capacidade de pensar por si próprio.
Quando passamos a agir de acordo com tradições que não sabemos de onde vieram e passamos a criar hábitos que não sabemos para que servem deixamos de ser humanos, deixamos de ser ser pensante e perdemos aquilo que nos difere de uma máquina de produção em massa, que faz as tarefas que deve fazer todos os dias, porém, não sabe porque, pra quem e nem como faz aquilo, apenas faz, dia após dia, até que pare de funcionar e seja jogada fora para que outra máquina tome o seu lugar e mantenha a fábrica funcionando, afinal, fábricas precisam de dinheiro e máquinas que a façam lucrar, assim como igrejas, emissoras de tv, multinacionais, revistas e demais propagadoras de tradições alienadas em massa.
Pela primeira vez nessa semana pude sentir que corre sangue dentro de minhas veias e que meu coração ainda pulsa forte.
Realmente, esta semana não está sendo das mais fáceis, porém nesta quinta-feira decidi não ficar mais uma noite em casa em estado semi-vegetativo na frente do computador esperando que alguma coisa boa acontecesse ou tentando sem sucesso fazer algo de útil, pois meu déficit de atenção nunca foi tão expressivo quanto nestes últimos dias.
Com tudo isso, nada mais proveitoso do que sair para a rua, a noite é propícia pra isso e encontrar alguns amigos sempre ajuda a melhorar um pouco o humor. Resta fazer aquelas coisas básicas de uma noite bajeense: caminhar pela sete, tomar algumas cervejas e jogar conversa fora em frente ao Iporã e como de costume, ir para a frente do pub quando acaba o movimento da sete. Esta é pra mim o pior momento da noite, mas tudo bem, pra acompanhar os amigos a gente faz um esforço.
1:00, 2:00, 2:30, 3:30, 4:00h. Já está na hora de ir embora, e, essa sim é a pior hora. É sempre um longo caminho até chegar em casa, e logo após caminhar uma quadra noto que começam a cair os primeiros pingos de uma chuva que provavelmente não iria acabar tão cedo. Me restou duas escolhas: voltar pro pub e esperar a chuva passar ou encarar a chuva e chegar logo em casa. Por motivos óbvios escolhi a segunda opção, já teve pub o suficiente pra uma noite.
A cada passo que eu dava parecia que a chuva ia ficando mais e mais forte, já quase não se via pessoas pela rua, e quando passava alguém, era uma triste alma procurando por abrigo. Mas eu não, resolvi que talvez seria uma boa idéia um banho de chuva, afinal, seria algo diferente a se fazer nessa semana de looser que estou passando. E realmente foi uma ótima idéia. Quanto mais forte a chuva ficava, parecia que a sensação era melhor, até eu notar que estava começando a diminuir os passos e caminhar lentamente pra aproveitar essa dádiva da natureza.
Não sei porque, mas um banho de chuva é diferente de um banho normal, enquanto o banho quente que tomamos em casa pode ser bastante eficaz para lavar o nosso corpo, a sensação de um banho de chuva é diferente, é como se a chuva fosse capaz de levar todas as angústias, como se ela lavasse a alma. Por esse momento, esse caminho chuvoso até minha casa não pensei em mais nada, não lembrei de nenhuma preocupação e de nenhuma das angústias e tristezas que vinham me atordoando nos últimos dias, apenas fui absorvido por uma sensação de tranqüilidade, como se eu fosse a única pessoa nesta cidade e que ao cair, a chuva levava embora todos os males que me preocupavam. Agora são 5:17h e eu tenho que ir secar meu cabelo... =)
Não há noite de insônia pior do que aquelas em que bate uma vontade enorme de conversar com alguém e ao olhar no msn não se encontra ninguém que dê vontade de ter um bom papo e dar algumas risadas, que hoje é segunda-feira e não é uma noite muito interessante pra sair, que os amigos mais confiáveis ou moram há quilômetros de distância ou então estão dormindo. Noites de sobriedade em que cai a real de que as pessoas não me chamam mais a atenção como antigamente, que muito raramente aparece alguém que impressione e que me faça investir algumas horas em um debate divertido ou até mesmo sem sentido, mas divertido. As pessoas têm seus próprios compromissos, responsabilidades e não sobra mais tempo para as velhas amizades, e, como no jogo the sims a gente vai perdendo pontos de afinidade quando ficamos muito tempo sem contato, é a dura realidade. Porém é uma verdade que cada ser humano é como se fosse um planeta que deve seguir o seu curso e todos os corpos celestes que encontramos no decorrer deste curso passaram e talvez jamais voltem. Nesta noite eu sinto falta de muitas pessoas que passaram pela minha vida e que possivelmente não verei tão cedo, se é que as verei. Saudade de vários acontecimentos que agora estão eternizados (?) na minha memória. A sensação que tenho nesta noite é de estar ilhado neste quarto e a única pessoa capaz de me ouvir sou eu mesmo. Mas espera aí Luiz Mário, tu tem que estudar, po#$@!